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sábado, 25 de setembro de 2010

olha, não dá pra dizer que falei ou deixei de falar. isso não se usa. a gente apenas fala e deixa que o som se perca no ar. torce também para que ele encontre algum ouvido distinto. ação e vibração; ação e vibração. daí meu celular tocou. vibrei com ele. seu som estranho sobre a mesa, como a fazer uma breve percussão. não se repetiu. corri e era uma mensagem de texto. número desconhecido da agenda. comenadei com o polegar a busca pelo texto e lá percebi que nem toda ação aciona uma vibração que valha a pena. cai na lista do conto do carro zero, por quase nada. estranho!

sábado, 7 de agosto de 2010

desnexo

explicação que aguarda
em texto uma abertura
é luz da vela que vela
a folha que se passa
a linha que dura
as coisas que se perdem
aquilo que se encontra
não descrevem o esperado
a escrita é uma pena
bêbada, numa via tonta

sábado, 22 de maio de 2010

quis ser do pretérito
o futuro no presente
compro bilhete de loteria
volto pra casa de coletivo
ninguém se escuta
mas se roça e pouco se sente
quem vai sentado
agita-se segundos antes do ponto
esse tempo entre atrasos e avanços
vencido o desodorante
vejo ao loge
uma música para embalar o sono
a vida me engana
e eu acredito

segunda-feira, 3 de maio de 2010

humano com seus ismos

há um convite a sua espera
ele está perdido como você
no meio e na beira da estrada
sem prazo de validade
mas pode encontrar outra pessoa
e sendo pessoal, na boa,
saia de casa
e assim, sabendo que tem casa
ganhe velocidade, como com asas
vá, pois você pode voltar

terça-feira, 27 de abril de 2010

a pequena história de um pequeno acontecimento ou a vida é de papel

me pediram para escrever correto. escrevi: correto! não acreditaram na minha escrita e ela sequer me pertencia. ela era de alguma coisa que eu usava e que também, de mim, tirava suas lasquinhas. retalhava meu corpo e o fazia outro a cada avanço da minha mão com caneta sobre a folha posta na mesa. a folha na mesa, branca ou pautada, era um ser em busca de aliança. como se dissesse; estou aqui pra isso, que jamais vou saber do que se trata, mas não tem importância. ela estava ali pra isso e cumpria bem as possibilidades de seu destino que se resignava em apenas deixar de ser folha em branco. bom, conversa que vai e vem, entre a gramática e a folha em branco, resolvi provar a experiência de outras linguagens, ainda não vivas, a me desfazer naquela folha que jamais sonhou em ser uma página bem escrita.

terça-feira, 23 de março de 2010

desfazer é fazer
outra coisa
com aquilo que não se queria
do jeito que fora
e sem seu pra sempre
um outro se fazia
como?
não sei ler de traz pra frente
sei desfazer,
somente

quinta-feira, 11 de março de 2010

caixa

um recado
não há lado de fora
por dentro
mas há lado de dentro
por fora
no mais
tudo engorda

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

a idade do homem

quanto mais se lê, mas se desconfia do lido. Extra interesse, cada um aposta no que lhe parece vivo e possívelmente capaz de ser vivido. os verbos parecem inimigos da vida. a música pode ser a audição a dizer de um modo de escuta pouco usual. hoje é carnaval e a música soa fantasia.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

pensar a vida em metades, não implica buscar complementos. Há os que anunciam no outro o prenuncio de si, o nefasto vício moral. Metades podem ser partes de condições deixadas de lado e que retornam adiante, como potencia de outra possibilidade. Podem entretanto ser tomadas por parte, senão do acontecido, daquilo que por vir já se fazia. Daí metade como aquilo que não se conta pra traz, posto não ser fração de si. Não se conta no agora, posto não ser razão de um eu. Não se conta pra diante, já que dela, algo vai ser medida esquecida, na margem de onde se passa. Metade é o sussuro, aquilo que se ouve entre os ruídos do bafo de quem diz e os outros sons que circulam o dito. Metade só há no dito. Daí a infelicidade dos escribas.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

uma outra

mundinho é um rapaz que não tolera ser chamado por mundinho. cidade pequena e a rua da frente era seu passeio, seu parque. mundinho era um menino dessa rua e ela era o seu mundo. cresceu e a rua e a cidade pareciam encolher aos seus olhos. injuriado pelas pessoas e com o lugar, resolve partir em busca de outros espaços. cidade grande, ruas, avenidas, trânsito lento, barulho, fumaça e outras inúmeras pessoas que não sabiam da sua história. o rapaz precisa comer, precisa conhecer gente, precisa trabalhar, precisa entrar na cidade e ser mais um a percorrer o dia-a-dia desse mundão. muito rápido, mundinho percebe que o melhor modo de estar na cidade é se reconhecer nela como dono de seu próprio mundinho. um satélite que desconhece a própria órbita. assim mundinho vai em busca de seu mundinho.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

uma versão

o mundinho é um pequeno raimundo, que recebe o carinho da mãe. mundinho cresce e mãe diz; vai mundinho fazer seu mundo! mundinho foi e mãe ficou com saudades de mundinho. o carinho de mãe e mundinho sobrevive na distância com um cantinho do outro posto na ponta de cada coração. mundinho-mãe; mãe-mundinho; mundinho-mãe-mundinho; mundinho-mundinho; mãe-mãe-mundinho. daí, no mundo, se fazem os mais vastos mundinhos; quando mundinho deixa de ser o mundinho, mas não deixa de ser raimundo.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

a dificuldade de dar tamanho aos sentimentos é uma sem teto. ela não reside, mas as vezes dá a impressão de permanência. daí articula sons em signos e ganha palavras próprias. lhe chamam de muitas coisas. dessas, a mais cruel atende pelo nome de amor.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

a doce vida

era um dia doce
manhã de sol
de praça, de praia
e açucarados rostos
cumprimentavam a brisa
calor humano,
dentes muito brancos
na vitrine
o sol com ciúmes
foi subindo a sua temperatura
deu meio dia
doces derrentendo
se guardando em casa
brisa, cadê a brisa?
brisa que nada
o doce da praça, da praia
foi pro quarto refrigerado
para sonhar caramelo

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

uma palavra não se faz
palavra não tem vontade
palavra é uma coisa
possuída
há quem diz,
há quem escreve,
há quem escuta,
há quem lê
palavra é menos que feijão
mas pode ser mais

terça-feira, 4 de agosto de 2009

klebermatos@uol.com.br

mande um e-mail
com coisas da imaginação
ditos nunca escritos
objetos confusos entre si
sem a desculpa do talvez
sem querer interpretar
querendo transpretar
atravessar essa zona ambigua
supostamente limpa
debilmente moderninha
que separa coisas que nascem juntas
transpreto eu
transprete você
e mande um e-mail
pra mim

quinta-feira, 2 de julho de 2009

comprei um pequeno cão. ele não sabia latir. mordia com seus dentes pequenos o que encontrava. atacava meus pés e fazias cócegas. aprendeu a latir e não desistiu de morder. os dentes cresceram com o cão. agora seu latido assusta. não temo sua boca e já não há como rir das suas mordidas. dizem que é da natureza. penso, as vezes, que ele poderia ter aprendido a latir antes de morder. faria diferença?

terça-feira, 9 de junho de 2009

Uma encomenda discreta foi feita a um poeta. Dizer das pessoas o que são. Sem chão para o escrito, pela primeira vez sua página disse antes do seu dito, daquilo que havia sido e do que jamais seria. O ser é para o ser; um verbo de ligação.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

entre ditos e escritos

Ganhei uma folha em branco. Um presente. Agradeci. Enchi-me de incomum carinho. Generosidade em dia de presentes pré-datados não é algo comum. Pasmei depois em querer saber o que escrever na folha em branco. Perguntei ao generoso se me tinha uma idéia. Respondeu que o branco da folha era sua vontade de minha expressão. Percebi que a folha não estava em branco, mas vi nisso um indício de amizade e como aquilo que vinha na folha, não precisava de escritos, pois já estava dito.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

"quem dera ser um peixe"

respirar é um ato sem razão. se repira instintivamente. respiram os pulmanóides e peixes. peixes não têm razão para nadar. nadam, entretanto. nadam tanto, que nem cansam. nadam como respiram. os peixes não tem shopping, academinas de ginástica e nem se submetem a cirurgias estéticas por capricho. fossem pulmanóides, esses peixes em nada, no nado, nos deveriam.

terça-feira, 7 de abril de 2009

outro dia me dei um texto engraçado. dele ri e descuidado, deixei vê que o meu riso era a denuncia de um querer. mas isso ainda não era do texto a tradução. todo significado denota afeto e acento, gramática e pensamento. adiante deixei em linhas aquele texto engraçado que me dei. daí ele foi embora, mas só; não fiquei.