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sábado, 10 de março de 2012


Nunca tive dor nos ossos.
A dor vai na carne
e rasga, e grita,
circula no sangue
e chega n'alma.
Dor nos ossos, nunca tive.
Isso agora estranho.
Como não doer aquilo
que está em mim,
tem forma, cor, peso e tamanho?
Três vezes quebrei o braço
em duas partiu-se ao meio
o cúbito e o rádio,
mas não tive dor nos ossos.
Vez em quando,
dói a alma, essa coisa dessemelhante.
Mas nos ossos que são meus, não.
Dor nos ossos, percebi
é quando a gente
querendo somente,
faz o que não precisa
e precisamente
quer doer no outro
o que arde em si.
Vai ver já tive
e de propósito esqueço,
por não querer
saber mais.
Ave os ossos!
Os meus, os vossos

terça-feira, 7 de junho de 2011

o que bebe o bêbado
sentado aqui, desse lado?
bebe o that disso
o this daquilo, não quer saber
conhecimento não lhe precisa
seus goles malabaristas
lhe imanam mundos-modos
lhe inundam modos-mundos
cantam dissonâncias
em seus olhos, sua cabeça
quase afogado
bebe vidas um bêbado
sentado aqui, desse lado

terça-feira, 3 de maio de 2011

falo como um ruído
a lingugem dos ratos
no mundo de gatos
e cachorros loucos

latidos-miados e silêncios
hábitos do instinto
e no ruído escuto
nele, não minto

digo de verdades
feitas de misturas,
interesses e vontades

assim, o que de mim se escuta
é o pavor assobiando
o clamor filho da puta

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

uma cola para um amor

daquilo que hoje bem sei
o doce mau de um dia
era razão que mal sabia
do teu bom, que me escorria

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

toda sorte tem sobrenome
um parentesco distante
que faz acreditar
porque não eu

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

um segredo capital

divida ao meio uma parte
de qualquer coisa
e assim por diante
cada metade
um dia, calos nos dedos
diante da mínima metade
divida seu tempo
com aquilo que lhe cabe,
a natureza de todo quociente
o pó

sábado, 25 de setembro de 2010

"dou-lhe duas"

fazer uma escrita
e mexer com os dedos
a pele espessa
nela fazer ferida
dela querer curativos
cicatrizes
depois, tatuado
é esquecer a precisão da marca
para lembrar
da dor
do ser
pontuado

domingo, 29 de agosto de 2010

devir menino

amanheci com catarata,
tudo a frente era turvo
como em London, no cinema
e vivido tantos anos
vi que não passava ainda
de uma criança, bem pequena

sexta-feira, 16 de julho de 2010

uma decisão que se toma
é em parte mão
noutra parte é pé
mas há uma parte
que está sem face
aquilo que faz que eu ande
que eu abrace
faz que chegue e que parta
acenando com a vida

uma decisão é aquilo que foi
quando bem se queria

sexta-feira, 9 de julho de 2010

hoje, hoje mesmo,
falei de mim pra mim
não me entendi
lhe vi e em mim
surgiu um meio
de encontrar seu mim
outro mim pra conversar
outro mim-mar
gritei pro seu mim
não sei se ouviu
se ouviu,
não sei se entendeu
se não, não se assuste
não mim-too, não mim-you
cada mim-mundo
um espaço de zelo

do meu mim pro seu mim
há uma distância mínima
e eterna
percorrê-la
dura o tempo que não se deve perder
com um caçador de mim

segunda-feira, 24 de maio de 2010

para o seu ouvido

há uma fala que chama
a amiga escuta
fala que não cansa
e perscruta,
as vezes fala mansa
que fabula sozinha
mas fala que encanta
e que de tanto, faz música
a fala canta
falas soltas no mundo
por baixo
por cima da terra
a fala é a superfície
onde o nada
se encerra

terça-feira, 11 de maio de 2010

quase soneto para os anjos do presente

algo que me espanta
ante a bactéria adormecida
espasmos da nervura retorcida
em gotas espessas do amor

fosse pra dizer de uma cor
fosse pra plantar em um quintal
diria doutro modo desse mal
que no ranger de ossos quer ternura

não meça o princípio
como outrora

não encha um barril
com pouca glória

não cante a bravura
com alento

dorme humano
no seu passatempo

terça-feira, 16 de março de 2010

um bate boca
pode ser grito
pode ser beijo
as coisas que me disse
as que vejo
as que intuo sentir
e das que sinto e despejo
coisas que fazem dizer
de tamanhos que não meço
e se na boca cala o grito
bate sem jeito o desejo
vibra no corpo
que seja beijo
que seja beijo

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

aquilo que foi
e não foi dito
ainda assim ecoa
coração que pulsa
coração que voa

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

um ponto, dois pontos,
uma vírgula, um ponto-e-vírgula

todo entendimento tem pausa
toda pausa quer ponto
quem não respira
fica tonto

por isso; pontos

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

para uma letra insolente

uma letra pode ser só uma letra
pode ser um poema para música
pode ser uma vontade de outra letra
assim letra é a força para o encontro
é algo meio tonto, embriagado
que enxerga sempre o caminho cruzado
daí pode seguir ou dobrar

toda reta só pode ser reta
e assim perde o chão
por se querer fora do tempo
a terra é redonda
e a letra faz curva

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

quando há encontro

um dia bom
é pés descalços
ao lado dos chinelos

um dia bom
é onda chamando
e vc deitado na areia

um dia bom
é quando não há
um bom dia oficial

um dia bom
é como se os dias
fossem deixando vontades

há muitos dias bons
mas é preciso fazê-los
sempre

eles não são presentes
não são climáticos
ou geográficos

eles tem uma magia
materializada no ato
de querer um dia bom

um dia bom
pode ser lindo

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

sobre coisas ditas retas

toda perna é torta
uma pula a janela
outra chuta a porta

toda porta entorta
pra dentro
pra fora

toda janela
está dentro e fora

torta janela
perna e porta

sexta-feira, 24 de julho de 2009

um devir-lata

a casa da memória
quando arrumadinha
faz da vida o sonho
da sardinha

sexta-feira, 17 de julho de 2009

a vida na calçada

aquilo que contorno
faz-se contorno
a casca não sabe da gema
a Clara não acha que é ovo
o ovo não é nada
um nome
na cabeça do povo